Geral

A PESTE DA NEGRA DESINFORMAÇÃO

MEDICINA/EVIDÊNCIA

Todos conhecemos a planta conhecida como “dorme-dorme” (mimosa pudica), que reage ao toque fechando suas folhas. Ela é o exemplo mais simples de um instinto comum a todos os seres vivos: fugir ou lutar contra as ameaças. E não faltam perigos ameaçando a humanidade no curso da história. Para cada um deles houve uma reação instintiva, tal como acontece com aquela plantinha. A reação que a peste negra, epidemia que dizimou um terço da população europeia sem poupar nenhuma classe social foi despertar a dúvida sobre a infalibilidade dos sacerdotes e dos nobres, até então detentores da proteção divina. Essa reação despertou a consciência que permitiu questionar a elite e organizarem movimentos sociais, como a Revolta dos Camponeses, um dos primeiros passos para o fim do sistema feudal e para o surgimento de uma nova classe social. O instinto dos seres humanos à peste acionou o gatilho do pensamento racional, facilitando o êxodo das trevas rumo ao iluminismo.

O pensamento crítico pariu um novo tipo de homem, que caminharia os três séculos seguintes manejando a habilidade de produção artesanal, até chegar às fábricas e deparar-se com máquinas à vapor substituindo sua força. Uma nova ameaça a desafiar seu instinto e desencadear reações. Como se comportar ante as mudanças sociais decorrentes do aumento da produção e das dúvidas a respeito de sua própria capacidade? Qual lugar o homem ocuparia em um mundo onde a produção se tornou segmentada, especializada, automatizada e cada vez mais independente da sua intervenção? Novamente a coletividade, como ser vivo, reagiu à nova ameaça – desta vez chamada de revolução industrial – e usou a tecnologia a seu favor, criando o capitalismo, inovando a área médica, saindo do campo e indo para as cidades, aperfeiçoando as comunicações.

As grandes crises empurram os homens para as cordas e produzem dois tipos de reações. As imediatas, que já começaram a se esboçar frente a nova peste que estamos vivendo, e as tardias, que só serão conhecidas daqui a muitos anos. Ambas, porém, nascem do temor e da magnitude das ameaças. A revista Diabetes & Metabolic Syndrome publicou um artigo tratando sobre esse tema com o título Psychosocial impact of COVID-19 (S. Dubey et al; 14 (2020) 779e788) onde elenca as várias manifestações já documentadas: irritabilidade, medo de contrair e de contaminar familiares, raiva, confusão, frustração, solidão, ansiedade, depressão, insônia e negação. É certo que somente as gerações futuras conhecerão as mudanças que estão sendo germinadas, contudo, já em 2018, a Dr.a Heidi J. Larson, professora de antropologia da London School of Hygiene & Tropical Medicine já dava pistas do grande risco secundário às pandemias na renomada NATURE: a desinformação. Enquanto as mudanças sociais decorrentes das grandes pestes e revoluções demoraram séculos para ocorrer e se firmarem, as novas adequações humanas tendem a se fazer mais rápida e, temerariamente, erradas porque concorrem com a mentira e com a rapidez dos meios de comunicação.

 Dr. Manoel Paz Landim

(Cardiologista, Mestre em Medicina pela FAMERP, Preceptor e Médico do Ambulatório de Hipertensão do Departamento de Clínica Médica da FAMERP, São José do Rio Preto)

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