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A nossa culpa de todos os dias

por Ayne Regina Gonçalves Salviano
02 de abril de 2018
Ayne Regina Gonçalves Salviano
“Accountability” é um termo em inglês que, traduzido para o português da melhor forma possível, significa algo parecido com responsabilização individual. Mas não se trata apenas de admitir culpa sobre algum acontecimento, está mais ligado à responsabilidade com ética e remete a uma obrigação do indivíduo. Infelizmente, duas ideias que estão muito distantes da realidade de boa parte dos brasileiros que, geração após geração, aprendeu a culpar o Outro pelos seus erros.
Para exemplificar, imagine alguns alunos que tiram notas baixas na escola. Geralmente, para justificar o mau desempenho, eles costumam culpar o professor (que não explica direito), a coordenação (que fez um horário ruim e colocou todas as matérias difíceis juntas e fica difícil o calendário de provas), a direção (que não apoia os jovens) e até o governo (que não admitiria bons profissionais nos concursos públicos, nem repassaria as verbas para melhorias). 
Mas em nenhum momento, estas crianças, adolescentes e até jovens universitários assumem que precisam de um comportamento proativo na educação, que não devem chegar atrasados quase todos os dias, não podem ficar nas redes sociais durante as aulas, que precisam ler, estudar e fazer exercícios todos os dias; e perguntar, muito e sempre para, enfim, cumprir o papel de quem quer efetivamente aprender.
Esses alunos preferem reclamar, culpar o Outro, qualquer que seja ele, e tirar de si a responsabilidade de aprender e de lutar por uma educação de qualidade, nas escolas públicas e particulares, do ensino fundamental ao superior. Esperam que o Outro resolva tudo. E o Outro não vai resolver porque esta “preguiça” de assumir as rédeas da própria vida que o brasileiro tem, é que faz nascerem os oportunistas. Sabemos bem o que é isso se pensarmos no cenário político atual, não é mesmo?
Outro exemplo: imagine trabalhadores que perdem seus empregos. É comum ouvi-los jogando a culpa no chefe (que perseguia), na empresa (que não tinha nem missão nem visão) ou na crise econômica (que não é a primeira e nem será a última). Mas eles também, em sua maioria, são incapazes de olhar pra si e perceberem que, depois de preparados, tornaram-se uma mão de obra que não se atualizou, não investiu em formação continuada com especialização, não desenvolveu soft skills (habilidades emocionais) ou, simplesmente, nem fez networking, só parou no tempo e congelou.
A falta de ‘accountability’ se espalha por todos os terrenos da vida: pessoal, social, política e amorosa. Sim! Nós somos os culpados de todos os nossos problemas. E quanto mais cedo acordamos para esta realidade, mais fácil fica viver. Caso contrário, teremos que continuar convivendo com números crescentes de depressão, síndromes e suicídio. 
Falta de “accountability” é imaturidade. Precisamos crescer. Assumir o controle das nossas vidas. Acertar e errar, lutar e conquistar, mas às vezes não. E, neste momento, ter resiliência e, então, recomeçar e lutar outra vez. Pois a vida é isso, um eterno administrar conflitos, fechar ciclos, encerrar etapas e recomeçar. 

Ayne Regina Gonçalves Salviano
(é professora e gestora educacional. Mestre em Comunicação e Semiótica e jornalista)