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A Jales que Vivi de 11 de outubro

CÉLIO SOARES, A MEMÓRIA DE JALES QUE NÃO SE APAGA!
12 de outubro de 2015

Filho do motorista Elizeu, funcionário exemplar dos irmãos Alves (Américo e Adelino), Célio Soares, juntamente com seus irmãos mais velhos Nelson, Celso e Hélio, também meus amigos de infância, sempre se destacou na vida jalesense. O artigo de hoje é uma homenagem afetiva que desejo fazer a tudo que Célio Soares representou em nossa infância e juventude, sempre trabalhando na construção de amizades, aconselhando, separando brigas, torcendo pelo tricolor do Morumbi, mais uma afinidade em defesa da alegria. Jamais esquecerei os gritos de gol de Célio na final do campeonato paulista de 1957, quando nosso São Paulo, de Poy, De Sordi e Mauro, Dino, Vitor e Riberto, Maurinho, Amaury, Gino, Zizinho e Canhoteiro sapecou um 3 a 1 no Corinthians e levou o título de campeão paulista. Nos últimos anos, Célio Soares tem resgatado a memória de Jales, contribuindo, decisivamente com as preciosas informações de sua memória privilegiada. Minha homenagem a Célio começa com a tragicomédia da feijoada!

FEIJOADA & SAL DE FRUTA

 

 

 

 

 

 

 

Corria o ano de 1964 e resolvi descobrir a cidade grande. Cheguei a São Paulo em Junho e logo encontrei Célio Soares, também tentando a vida na capital, pela segunda vez. Foi meu guia e anjo da guarda nos difíceis primeiros passos. Fui morar na Alameda Glete, num assustador porão, quase esquina com o Largo Coração de Jesus. Andamos procurando emprego juntos. Eu tinha experiência na área bancária e Célio era como é até um hoje, um notável vendedor, em tempo integral. E o dinheiro foi acabando, acabando e já não estava mais conseguindo almoçar e jantar. Pintou o desespero e Célio foi para Osasco, tentar um emprego na cidade, ajudado pelo amigo Joaquim, irmão de João Codorna. Vendo minha situação precária, o dono do mercadinho me ofereceu uma caixa de engraxar sapatos, deixada para ele guardar por um cearense que foi passear no nordeste e morreu afogado em sua terra natal. A caixa tinha todo material necessário para engraxar sapatos. Como fui engraxate na infância, na Agência de Revistas Mariza, sabia dar um brilho razoável nos calçados. E foi o que fiz no Largo Coração de Jesus, já no dia seguinte. Andava com a caixa nas costas, oferecendo graxa para as pessoas que sentavam nos bancos da gigantesca praça. E começou chover em minha horta, porque os clientes percebiam que eu tinha uma linguagem igual à deles e quando rolava uma conversa, a cultura geral sempre me salvava, graças ao hábito da leitura. E passei a comer todos os dias, pagava o porão sempre adiantado, graças à clientela que fui formando. Três meses engraxando sapato na praça, quase me acomodando e de repente aparece o Célio, novamente desempregado e fica estarrecido de ver que eu estava engraxando sapatos, mal vestido, todo sujo de graxa. Ficou indignado e disse que deveríamos procurar um emprego de vendedor, principalmente de coisas que voce recebe no mesmo dia. E abrimos o jornal em procura do emprego que gera dinheiro diariamente, em espécie. A melhor proposta era vender sal de fruta em bares, padarias e lanchonetes, carregando os pacotes, que os comerciantes geralmente colocam próximo ao caixa, nas costas. E fomos até a empresa distribuidora do Sal de Fruta, preenchemos a ficha, levantaram nossa “capivara” e fomos aprovados. Só que exigiam um fiador, porque iríamos carregar, nas costas, quarenta pacotes de sal de fruta, diariamente. E o trabalho era prestar contas no dia seguinte, entregando à empresa o valor dos pacotes vendidos, fazendo reposição. E na prestação de contas já tirávamos nossa comissão. E onde achar um fiador em São Paulo? Célio lembrou imediatamente do nosso grande amigo Jesus Canato, que imediatamente assinou para os dois. Mas a empresa só aceitava uma assinatura de fiador, cancelando a segunda fiança, o que me levou procurar outro fiador, lembrando imediatamente em Olinto Ridolfo, advogado jalesense bem sucedido em São Paulo, diplomado nas arcadas sábias do Largo São Francisco. Olinto nos recebeu com a máxima dignidade, oferecendo aquele café reforçado de seu vitorioso escritório de advocacia. Foi logo assinando a fiança e nos convidou para voltarmos sempre que precisássemos de alguma coisa. Com as cartas de fiança em mãos, chegamos todos orgulhosos ao escritório da empresa e pegamos o imenso saco que tomava todo espaço de nossas costas. Sábado, sete horas da manhã, combinamos de fazer a Avenida São João, maior artéria de bares, lanchonetes, restaurantes e padarias da capital paulista. Fomos informados que do prédio do Banespa até o Parque Antártica iríamos visitar mais de 200 estabelecimentos comerciais, todos com alto poder de compra. E se esvaziássemos rapidamente o saco, telefonar à empresa que o serviço de apoio iria nos levar outro saco. Coisa super organizada! Começamos nos separando, ficando cada um com um lado da calçada, mas sempre monitorando o outro, para a gente não se desencontrar. E como era sábado, dia de feijoada em São Paulo, todos os bares, restaurantes, lanchonetes e padarias faziam feijoada, que já amanhecia pronta porque começavam fazer de madrugada. E aquele aroma alucinante de feijoada nos caldeirões, espalhando-se pelas calçadas, provocava salivação imensa. Nove horas da manhã, mais de 30 estabelecimentos visitados, o cheiro de feijoada enlouquecendo de vontade e não havíamos vendido um só pacote de sal de fruta. Sem um tostão no bolso, fomos salvos, duas vezes, por bananas descartadas nos lixões de mercadinhos, mas que dava para aproveitar mais da metade.
O cheiro de feijoada aguçava a fome e as bananas “recicladas” nos salvavam! Onze horas da manhã, quase final da São João, nenhum pacote vendido. Fizemos as contas e não perdemos a esperança, porque três pacotes de sal de fruta dariam para comer uma feijoada completa, acompanhada de uma generosa Coca-Cola. E Célio, sempre otimista, quase meio dia, dizia que chegaria nossa vez e haveríamos de vender pelo menos dois pacotes, resultando numa mini feijoada com Coca-Cola. 
Duas horas da tarde, aquele frio avassalador de final de junho, gente saindo palitando os dentes após degustação da senhora feijoada e nós, náufragos da metrópole, rezando, quase em tom de súplica, para que conseguíssemos vender pelo menos dois pacotes de sal de fruta. Três e meia da tarde, estomago do avesso, a feijoada ainda rolando, casas sempre lotadas paramos numa lanchonete humilde, mas lotada, e ficamos olhando o pessoal comer a feijoada, com aquela boca gostosa, quase desmaiando de fome e com o cansaço de estar andando desde as sete da manhã. Sentamos num c0antinho da lanchonete e uma simpática garçonete nos abordou, perguntando qual era nosso prato desejado. Desconversamos, dizendo que estávamos esperando dois amigos que vendiam sal de fruta conosco, para almoçarmos juntos. Muito educada, disse que seu patrão estava precisando de sal de fruta. Não acreditamos no que ouvimos e fomos, quase correndo, até o caixa, perguntar ao proprietário se desejava sal de fruta, respondendo que sim. Imediatamente tirei um pacote das costas e passei às mãos do comerciante, que disse o seguinte:- - Quero cinco pacotes! 
Célio já contou essa história para Jales inteira, destacando minha exclamação quando ouvi que o comerciante desejava cinco pacotes de sal de fruta - O SENHOR QUER CINCO PACOTES?????? E assim, quatro horas da tarde de um sábado gelado, Célio Soares e eu comemos a mais gostosa feijoada já degustada em toda minha vida. De náufragos em alto mar, sem uma tábua e sem bússola, nos tornamos barões do feijão preto, senhores da costelinha, nobres do paio, cantores de óperas calabresas, navegadores em bacon, enfim, transformadores de tristeza passageira em alegria imensa. Nos demos ao luxo de duas gigantescas caipirinhas, duas Coca-Cola cada, sobremesa de laranja baiana e um pudim. A lanchonete trocou os cinco pacotes de sal de fruta por nosso banquete. Assim é Célio Soares, a eterna esperança de que a vida é uma feijoada que sempre se alcança, mesmo chegando as quatro da tarde, após cheirarmos, qual cães sem dono, mais de trezentas feijoadas diferentes.O espírito otimista de Célio é uma feijoada completa !
 
COMÍCIO NA ESQUINA DA FRANCISCO JALLES COM A RUA OITO, ELEIÇÃO MUNICIPAL DE 1957
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Domingo de muito calor, período da tarde, comício de encerramento da campanha de Euplhy Jalles, candidato a prefeito e Honório Amadeu, candidato a vice-prefeito, vencedores daquela eleição, terceira disputa municipal da história de Jales. Reparar que o chapéu masculino, proteção natural naquele sol escaldante, era o de passeio, porque no trabalho durante a semana era aquele “chapelão” tipo panamá, usado até hoje pelos boiadeiros e sitiantes na hora de pegar no cabo da enxada. 
Os chapéus, maioria marca Ramenzone, lembravam os chapéus dos galãs de filmes americanos, geralmente na cabeça de Clark Gable, Humphrey Bogart e Glenn Ford, destaques da época. E as crianças da foto não usavam chapéu, porque era um componente apenas do vestuário masculino adulto. A molecada vivia com o “coco quente” no calor de Jales, mas tinha os córregos nas baixadas das Ruas Um e Dois para se refrescarem. 
As mulheres presentes no comício também enfrentaram o sol com a cabeça descoberta, porque o boné, muito utilizado hoje por ambos os sexos, ainda não frequentava os “sertões” de Rio Preto. Em destaque, logo na primeira fileira, CÉLIO SOARES, com 15 anos, ao lado do querido e muito popular “Sócio”, genro do motorista Bigode e cunhado do saudoso Olivier, genro de Seu Quirino e Dona Maria. “Sócio” está de chapéu preto, ligeiramente torcido pra trás, bem mais alto que o adolescente Célio, presente em todos os eventos da cidade. Jalesenses com mais de sessenta anos, se prestarem bastante atenção na foto, vão encontrar muitos parentes e amigos. Mantovani, Cido da Riachuelo, Bertinho, irmão de D.Maria do Duquinha, Jair Pegolo, Américo Alves, Júlio Iglesias e seu filho (pai de Cidinha Iglesias), Seu Aristeu (pai do Beu, Dota, Zélia,Gringo,etc), Pimentel, Zé Nogueira, Edevaldo (irmão da Vaner), Bernardino, Orestes Perezi, Cidinha Cândido,etc. 
Joaquim, irmão de João Codorna, grande vendedor em lojas de tecidos, em Jales, Osasco e outras cidades do Brasil. De óculos escuros, cigarro no canto da boca, Ozildo Massa, irmão de Luiza, Odete e Vanderlei, filho do comerciante Massa, pioneiro muito querido na Jales antiga. No meio da foto, sempre sorridente, o ainda muito vivo e saudável, sempre circulando pelas ruas de Jales, onde é conhecido da cidade inteira, Zé Galinha, personagem que o apelido virou nome, para sempre. Filho do saudoso Mané Celes, muitos irmãos, Zé Galinha fez parte do time de grandes vendedores vencedores do comércio de tecidos. Célio Soares, o mais alto da turma, magro como sempre, exibindo seu vasto e engomado cabelo de adolescente, sem saber que iria virar homenageado de Projeto MEMÓRIA do Jornal de Jales e da série “A Jales que eu Vivi” tantos anos depois, por sua personalidade brilhante, memória privilegiada e dotado de manifestações contínuas de amor a Jales, fazendo reviver a linda história deuma cidade onde gente como ele entrou pela porta da frente. O último da foto, barra da calça dobrada, relembrando a juventude dos anos James Dean, grande contador de histórias, simpatia contagiante e poderosa liderança afetiva, o inesquecível Milton, mais um personagem que o nome virou apelido e ninguém tem a menor ideia de qual é seu sobrenome. Jales conheceu e reverenciou Milton Pneu Mucho, o quinto artista dessa foto histórica e que conta muitas passagens de nossa cidade.  A última notícia que tive de Pneu Mucho, através de Vanderlei Massa, foi que ele  morava em Nova Odessa. Passando por lá, entrei na cidade e achei sua casa, mas ele estava viajando e fui muito bem recebido por sua esposa, que não conhecia. Ao me despedir, disse a ela que não se esquecesse de falar ao Milton que ele foi um dos melhores amigos que tive na vida.

 

 

 

Célio, Nelson, Maria, Celso e Hélio. Parte de família Soares em foto de 1950

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Célio Soares em foto de 1956                                                                   ​Foto recente de Célio Soares

Célio Soares lembrava muito um comercial de uma rádio de São Paulo “Se não quer que a rádio dê a notícia, não deixe acontecer”. E o povo dizia, a respeito de Célio: “Se não quer que o Célio Soares apareça, não deixe ficar sabendo” Graças à vontade de viver a plenitude de sua infância e adolescência em Jales, Célio se tornou nosso grande memorialista, contribuindo para passar aos historiadores e novas gerações a Jales que vivemos nos primórdios!

Roberto Gonçalves (é  Cientista Político) 

roberto.motivacao@gmail.com