quinta 22 outubro 2020
Eventos

A Invasão Britânica

 Eugenia Maria

Os trabalhos sobre os Beatles que desenvolvo com os alunos sempre me chamaram a atenção. O fato é que a meninada, mesmo os mais novos, conhecem, muitas vezes com detalhes, a história do grupo que marcou a vida dos seus pais e avós. Nesse período em que se comemora um dos momentos mais marcantes do mundo pop no século passado, acho importante trazermos um pouco mais de informações sobre esses quatro rapazes tidos como rebeldes ou da pá virada, que fizeram história e até hoje são referência obrigatória em várias áreas. Os Beatles tiveram grande influência não só na música e na cultura, mas na economia, na indústria, na política e na sociedade como um todo, com milhões de fãs até hoje espalhados pelo mundo.
Os beatlemaníacos de Jales que não são poucos e viveram aquela época certamente se recordam de eventos importantes como este que está na mídia lembrando a chegada do grupo aos Estados Unidos que ficou conhecida como “A invasão Britânica”.
Esta matéria é resultado de um desses trabalhos de pesquisa desenvolvidos pelos alunos do Cultura Britânica em sites americanos e ingleses no dia 16 de janeiro, data definida pela Unesco como o Beatles Day (Dia dos Beatles).
OPERAÇÃO EUA
Apesar do sucesso na Inglaterra e Europa desde 1960, os Estados Unidos, que já eram uma influência cultural de destaque e definiam o mercado mundial de música, se negavam a aceitar os Beatles. Por um bom tempo eles foram ignorados naquele país. Brian Epstein, o empresário do grupo, não conseguia convencer a Capitol Records, gravadora americana que pertencia à britânica EMI, a colocar no mercado os singles que já faziam imenso sucesso na Europa. Ele chamava essas tentativas de Operação EUA.
A América tinha o rei do rock, Elvis Presley. Seu empresário, o Coronel Tom Parker, exercia uma influência quase incompreensível, não só sobre o astro, mas no mercado fonográfico. Ele não media esforços para manter os rapazes de Liverpool bem distantes.
No dia 31 de outubro de 1963, em Heathrow, os Beatles estavam de volta a Londres, depois de uma turnê na Suécia. Também se encontrava no mesmo aeroporto o famoso empresário e apresentador da televisão americana Ed Sullivan que ficou retido pela recepção histérica dos fãs e achou que seria interessante levar ao seu programa aquela banda inglesa que mobilizava multidões. “Logo percebi que era o mesmo tipo de histeria coletiva que caracterizou os tempos de Elvis Presley”, declarou depois ao New York Times. A carreira de Elvis explodiu quando Sullivan lhe deu uma série de três apresentações. Seu programa tinha uma audiência cinco vezes maior que a BBC.
Logo que chegou aos Estados Unidos pediu para sua equipe entrar em contato com a banda. Epstein viaja até Nova Iorque para as negociações e convence Sullivan a fazer três apresentações.
Com esse contrato em mãos ele conseguiu um acordo pela Capitol Records para lançar “I Want To Hold Your Hand” nos Estados Unidos. Desde o final de dezembro as estações de rádio americanas estavam tocando essa música. Em 18 de janeiro de 1964 “I Wanna Hold Your Hand” entrou na Billboard Hot 100 e alcançou o 45º lugar. Na semana seguinte, já estava na terceira posição. A canção se tornou o single de vendagem mais rápida da Capitol. Quando atingiu o topo, em 1º de fevereiro, ficou como Nº 1durante sete semanas, fato que se repetiria mais 20 vezes com outras canções, um recorde que até hoje não conseguiu ser quebrado.
A Capitol começou a investir, cartazes foram espalhados em todas as grandes cidades com a frase “Os Beatles estão chegando”. Os maiores disc-jóqueis receberam junto com o material promocional um disco que lhes permitia fazer “entrevistas” e receber as respostas dos rapazes. As primeiras matérias sobre os Beatles saíram na The New Yorker e na The New York Times Magazine.
INVASÃO BRITÂNICA
No dia 7 de fevereiro de 1964, os músicos britânicos (autodidatas multi-instrumentistas) partiram no voo 101 da PanAm para Nova York. O Boeing 707 aterrissou às 13h20 no aeroporto JFK. Nos dias que antecederam a chegada as estações de rádio vinham estimulando os fãs. O mais famoso disc-jóquei de Nova Iorque, Murray The K, da rádio 1010 WINS, divulgou a hora de chegada e o número do voo.  
Cerca de 5 mil fãs lotaram o terminal de desembarque junto com mais de 200 repórteres e fotógrafos de todos os meios de comunicação. No aeroporto, deram a primeira entrevista coletiva nos EUA. A mídia foi surpreendida pelo bom humor, inteligência, irreverência e ironia nas respostas. Resumindo: a América conhecia quatro bardos ou celtas legítimos.
“A imaginação dos Beatles foi contagiante. Os fotógrafos quase esqueceram de fazer as fotos”, disse o New York Times. Steven Spielberg, na sua primeira produção e Robert Zemeckis, na sua primeira direção, realizaram o filme I Wanna Hold Your Hand - Febre de Juventude, em 1978, extremamente fiel à história.
Os Beatles fizeram sua primeira apresentação no Ed Sullivan Show para todo o país, com uma audiência de 73 milhões de pessoas em 46% dos aparelhos de TV, em 9 de fevereiro de 1964, um recorde para a época. Outro recorde: no dia da apresentação o índice de criminalidade praticada por jovens caiu para zero.
No final de março, os Beatles ocupavam simultaneamente as cinco primeiras colocações da parada de compactos e tinham dois álbuns entre os mais vendidos, o que representava 60% de todos os discos vendidos nos EUA.
Em 22 de fevereiro, quando retornaram para a Inglaterra, tinham à sua espera cerca de 10 mil fãs. Voltaram como heróis conquistadores. Começava a fase que ficou conhecida como “A segunda colonização”.
Os Beatles tornaram-se parte da história cultural do planeta. Conhecer os Beatles é quase tão importante quanto conhecer Shakespeare. O inglês moderno ficou conhecido pela obra de William Shakespeare a partir de 1550, quando a Grã-Bretanha se tornou um império colonial, espalhando-se por todos os continentes.
A beatlemania levou a um processo de anglicização e fez com que as pessoas de países de todas as línguas começassem a aprender inglês.
Quando os 50 anos da estreia dos Beatles nos Estados Unidos são lembrados no mundo inteiro, a Academia Discográfica daquele país entrega à banda um Grammy Recording Academy Lifetime Achievement (pelo conjunto da obra). A data também está sendo comemorada com a reedição de álbuns do grupo, alguns pela primeira vez em formato CD como The U.S. Albuns, uma caixa com 13 CDs e um livro de 64 páginas, contendo muitas fotografias e os anúncios da época, além de um texto inédito assinado pelo escritor e executivo norte-americano Bill Flanagan.
Um programa intitulado “The Night That Changed America: A Grammy Salute To The Beatles”, irá ao ar na CBS em 9 de fevereiro, às 20 horas, marcando o dia exato do aniversário de 50 anos da performance dos quatro no “Ed Sullivan Show”.
Cinquenta anos depois, a música e espírito parecem ser atemporal. E podemos concluir com: Yeah, Yeah, Yeah!


“Para Eugenia, com amor, Yoko e Sean”
Como tantos fãs dos Beatles, eu também guardo alguns momentos interessantes relacionados com a banda.
Um desses episódios, bastante gratificante, aconteceu em1984. Eu estava em Fortaleza trabalhando como produtora cultural quando decidi realizar um evento com o tema Beatles. Escrevi para o Jann Wenner, editor e fundador da revista Rolling Stone para trocar ideias e pedir material, no que fui prontamente atendida. Mas ele ainda me fez uma surpresa. Jann sempre teve acesso livre a John Lennon e Yoko Ono. Ele comentou com ela sobre a nossa produção e Yoko me mandou uma carta de agradecimento e um cartão de natal que guardo até hoje como recordação daquele período. (E. M.)

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