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A insustentável leveza do ser

Por MARCO ANTONIO POLETTO
21 de abril de 2019
O Cine Jales era o orgulho da cidade, com grande e solene balcão de doces e balas, uma enorme sala de espera. Seus funcionários usavam até uniformes
Na semana de aniversário da nossa querida Jales, nada mais doloroso para muitas gerações, que por aqui nasceram, do que passar em frente ao lugar em que o Majestoso Cine Jales reinou por longos e deliciosos anos. Para meus conterrâneos, aquele imponente prédio sempre representou o templo da cultura e do lazer. Ali, os jovens de sucessivas épocas, viveram sonhos. Derramaram, talvez, as primeiras lágrimas provocadas pela arte do cinema. Abriram seus olhos para um mundo exterior, maravilhoso e fantástico. Experimentaram a alegria de participar da vida, mesmo numa pequena comunidade, tão distante dos grandes centros. Ali, no palco, tivemos, também, conhecimento da arte do teatro, festivais, programas de calouros nas manhãs de domingo e grandes shows. Na plateia a lembrança saudosa de vários amigos que se perderam no tempo, namoricos primaveras (pega na mão), pessoas importantes da terra que respiraram juntos as emoções emanadas daquele recinto mágico. Mas, agora, quem passa pela rua oito, se depara somente com a saudade.  O Cine Jales fez parte da história de muitas pessoas nesta cidade. O cinema é um modo de retratar a identidade cultural de um povo, através de suas crenças, mitos, linguagem, história, princípios e costumes. 
Na década de 60, o cinema ditava moda em Jales. As mulheres procuravam imitar as deusas da tela, na maneira de vestir de se pentear e pintar o rosto. Até na maneira de andar, sentar e se comportar. Todas procuravam alguma coisa que as identificassem com as atrizes de Hollywood. Nesta época Jales tinha duas salas de projeção: Cine Jales e São José. Era nesse espaço que a população assistia os filmes que viriam a influenciar hábitos, costumes e comportamento da nossa cidade e região.
 O Cine Jales era o orgulho da cidade, com grande e solene balcão de doces e balas, uma enorme sala de espera. Seus funcionários usavam até uniformes. Quem já passou dos quarenta certamente se lembra com saudades da época dourada do Majestoso Cine Jales.  Abraços a todos que frequentaram o Cine Jales, que conheço e que não conheci nas maravilhosas sessões daquele saudoso cinema. Cine Jales, o Majestoso.
Amigos, a preservação do patrimônio é a preservação da identidade de uma cidade. Reconhecimento e proteção de bens coletivamente representativos são atitudes de estadistas.  A paisagem desta cidade, que um dia já foi Centro de Região, está diferente já algum tempo.   Certa vez me apresentaram um livro, de uma lista de alguns... Dentre muitos outros esse livro: ‘’A insustentável leveza do ser.” São personagens que mudam de opiniões, buscam novos cenários e motivações, mas não percebem o caráter repetitivo dos erros, dos prazeres e desprazeres que vão e voltam. Cada qual com suas virtudes e vícios, percebem-se em suas “insustentáveis levezas”. A insustentável leveza do ser é justamente o caráter fortuito, casual do ser diante da vida inaudita; nada se finca ou se fixa diante do inefável. Minha escolha motivou-se pela curiosidade: - O que  seria  insustentável? Segundo dicionário Aurélio: “Que não se pode sustentar, sem fundamento, insubsistente’’”.  Isso me levou ao mais profundo desejo de repensar os muitos  erros das administrações que por aqui passaram!  Os amantes da história e cultura local estão vivendo um verdadeiro pesadelo, os bens históricos de “nossa cidade” estão sendo exterminados. Mas, alguns erros históricos não são de agora, vem de muitas administrações passadas. Lembram-se da Igrejinha com o seu Coreto que foi derrubada para construção do Fórum; o Cruzeiro da fundação que virou ponte no Córrego do Ribeirão Lagoa; a casa da família Jalles na Rua Sete, a casa dos Vianna da Rua 10, o Tênis Club que virou Ipezinho, etc. Agora, com muita tristeza, estamos observando o triste fim do Clube do Ipê, e o Jales Clube e por ai vamos...! Porque os valores históricos de nossa cidade estão sendo desprezados? Sabemos que a palavra patrimônio é originada de pai, pois é este que nos dá a identidade, por isso temos o dever de preservar tudo que está ligado à nossa cultura. É nosso dever como cidadãos fazer com que estas pessoas se conscientizem que para fazer a diferença temos que agir com sabedoria, pois o futuro está em nossas mãos. É nosso dever ajudar a preservar todo bem cultural ignorado pelo poder público seja ele material ou imaterial.
Amigos que amam Jales, preservar nosso patrimônio é uma forma de reviver nossa identidade, nossa memória é algo de valioso que temos e não devemos deixar que exterminem, por isso a melhor forma de preservação é a união, conscientização e sustentabilidade. Seja consciente! Ajude nossa cidade, nosso povo a ter sua história mantida viva para ser passada de geração em geração.

Marco Antonio Poletto 
(é gestor no Poder Judiciário, Historiador, Articulista e Animador Cultural)