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A importância do Dia da Consciência Negra

Por Léo Huber
17 de novembro de 2019
Léo Huber
Para conhecer o Brasil precisamos saber de sua história da cultura de vários povos que aqui se encontraram e contribuíram com suas bagagens e memórias na construção deste país e na produção da identidade brasileira. 
Os portugueses que aqui aportaram encontraram os povos nativos, sobre os quais levantaram a suspeita de não serem humanos como os europeus, mas nunca duvidaram de sua utilidade como força de trabalho. Foram logo escravizados nos engenhos de açúcar e razão de bons lucros para os bandeirantes que os caçavam e vendiam. 
Os africanos escravizados foram trazidos para cá já a partir do século XVI. O tráfico negreiro é considerado, por sua amplitude e duração, como uma das maiores tragédias da humanidade. Vários historiadores concordam que 40 milhões é a estimativa da quantidade de africanos arrancados de seu continente e escravizados nas Américas e Europa. 
O pintor alemão Rugendas, que viajou pelo Brasil na primeira metade do século XIX, estimou que a população brasileira em 1827 era composta de 72,5% de negros, 15.5% de brancos e 12% de mestiços. 
Para justificar um crime de tais dimensões contra os africanos, difundiu-se a ideologia de que eram seres inferiores, sem história nem cultura. Na literatura nacional, pesquisadores renomados encontraram as visões estereotipadas do negro, apresentado como de submissão hereditária, escravo demônio, infantilizado, pervertido, erotizado, sensual, ou ainda como humilde, infantil, dócil, incapaz de reação ou de revolta. 
A história da África é rica e desmarcara esses estereótipos. São exemplos da cultura africana a civilização egípcia, uma das duas grandes civilizações da antiguidade. O próprio Heródoto, grego pai do ofício de historiador, definiu o Egito como uma civilização de um povo negro. Os africanos não eram povos vivendo em tribos isoladas na mata. São exemplos de outros grandes reinos africanos o Reino Kush, Méroe, Etiópia; no centro do continente, os impérios de Gana, Songai, Kanen-Bornu, Achanti; ao sul o império Monomotapa e o estado Zulu. Os africanos são os criadores de vários alfabetos, pioneiros na metalurgia, grandes matemáticos, astrólogos e arquitetos. 
No Brasil, é forte o preconceito contra o negro, comumente associado à criminalidade, pobreza e sujeira. Nega-se sua contribuição decisiva no desenvolvimento econômico – é a força de trabalho que sustenta este país desde o princípio – e tem uma contribuição central na formação de nossa cultura e identidade nacional. 
O negro sempre resistiu à condição de escravo que lhe foi imposta. O 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, data da morte do grande líder Zumbi dos Palmares é referencial porque foca a resistência negra formando quilombos, suas revoltas nos engenhos e fazendas, e as suas organizações religiosas. O negro precisa assumir o seu valor como ser humano e construtor decisivo deste país, e nós, os brancos, devemos superar nossos preconceitos e estereótipos, para vivermos em uma sociedade de respeito e dignidade. 

Léo Huber
(É mestre em História Social, Professor de História da África no UNIJALES e membro da Pastoral da Cidadania de Jales)