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A força do trabalhador brasileiro

por Carlos Eduardo Maia de Oliveira
03 de junho de 2018
Carlos Eduardo Maia de Oliveira
Existe um detalhe curioso relacionado ao elefante de circo. Durante a apresentação no picadeiro demonstra força descomunal, no entanto, fora dos palcos, o paquiderme se mantém preso a uma corrente ligada a uma estaca fixada toscamente no chão. Claramente o animal, que demonstra incômodo com a situação (haja vista que fica balançando o corpanzil o tempo todo) pode romper, facilmente, essas amarras. E por que ele não faz isso? Porque quando filhote foi preso a essas correntes e deve ter tentado escapar e não conseguiu, conformando-se com a situação. Por isso, o pobre elefante, mesmo adulto, não é consciente de sua própria força. Se tivesse essa consciência...
Lembrei-me dessa anedota ao conversar, em recente reunião realizada na Câmara Municipal de Jales com um integrante do grupo que organizou o encontro, sobre a força do trabalhador brasileiro. O ilustre cidadão destacou que, ao contrário do que muitos pensam, o trabalhador é o lado mais forte do setor produtivo. Concordei com suas palavras e logo comecei a pensar a respeito.
Em todos os setores da cadeia produtiva, o trabalhador possui papel vital, pois sem sua força de trabalho, que é vendida ou utilizada para garantir sua sobrevivência, não teríamos a produção de bens e serviços, não existiria nem mesmo a reprodução do capital e o lucro dos donos dos meios de produção – objetivos centrais, e nem sempre admitidos, do Capitalismo Moderno. Vejamos alguns exemplos da importância e da força de algumas categorias de trabalhadores brasileiros.
De acordo com a Confederação Nacional do Transporte (CNT), a maior parte da matriz do transporte de cargas no Brasil, cerca de 60%, concentra-se no rodoviário. Já imaginaram uma greve geral dos caminhoneiros no Brasil? Pois bem, a categoria entrou em greve no dia 21 de maio contra os altos preços do diesel e, segundo matéria publicada no site UOL, do último dia 23 de maio, “a greve dos caminhoneiros autônomos, em seu terceiro dia, já produz impactos importantes na oferta de produtos e serviços comuns do dia a dia dos brasileiros, como alimentos, combustíveis, correios e transporte público. Faltou etanol em vários postos de combustíveis”. Senti na pele os efeitos dessa greve, que acho justa e legítima, pois no dia 24 de maio, tive que abastecer meu automóvel às pressas com receio de passar o fim de semana sem transporte. Formaram-se filas intermináveis de carros na frente dos postos de combustíveis, começaram a faltar produtos básicos nas gôndolas dos supermercados, sobretudo nas grandes cidades, e as aulas foram suspensas por alguns dias nas universidades e institutos federais. A paralização dos caminhoneiros teve repercussão instantânea e tão importante na economia do país e na rotina do brasileiro, que o governo se apressou em negociar com os líderes do movimento para se chegar a um acordo. En face dessa paralisação, faço a seguinte pergunta: consegue-se ficar sem os produtos transportados por esses trabalhadores?
Outro bom exemplo pode ser constatado em nosso prato de comida. Alguns gêneros alimentícios estão presentes, diariamente, na mesa do brasileiro, como o arroz, o feijão, os derivados da mandioca, dentre outros. Poucos sabem, mas devemos isso, em grande parte, à agricultura familiar. De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), nove em cada dez propriedades agrícolas mundiais – 570 milhões – são geridas por famílias, que produzem cerca de 80% dos alimentos no mundo.
“Cerca de 70% dos alimentos que vão à mesa do brasileiro são da agricultura familiar, de acordo com matéria publicada no site do Ministério da Casa Civil em 02 de outubro de 2017. Além disso, 90% dos municípios brasileiros com até 20 mil habitantes têm como base econômica a agricultura familiar, segundo o Censo Agropecuário brasileiro de 2006. O setor é responsável por “35% do produto interno bruto nacional e absorve 40% da população economicamente ativa do país. Pelas mãos do agricultor familiar são produzidos 87% da mandioca, 70% do feijão, 46% do milho, 38% do café, 34% do arroz e 21% do trigo do Brasil”. Ao beber leite e seus derivados, destaca-se que 60% da produção nacional provém da agricultura familiar, 59% do rebanho suíno, 50% das aves e 30% dos bovinos nacionais. Ufa, acabou? Não! O setor ainda é responsável por empregar 74% das pessoas no campo e pela produção de 50% dos alimentos da cesta básica. Será que um representante da agricultura familiar, ao solicitar financiamento de sua produção agrícola, recebe o mesmo tratamento despendido a um grande latifundiário? O agronegócio pode até ser Tech, como apregoa uma famosa propaganda televisiva, mas pop, certamente é a agricultura familiar. Faço o seguinte questionamento: consegue-se ficar sem os alimentos produzidos pelo trabalhador da agricultura familiar?
Gostaria de escrever mais sobre o assunto, porém, não cabe nessas poucas linhas o destaque da importância de outras categorias de trabalhadores, tais como os operários da construção civil, da prestação de serviços, do comércio, da indústria, o funcionário público, o professor, os profissionais da área da saúde, enfim, todo aquele que garante o crescimento da economia nacional e o sustento do seu lar com sua força de trabalho.
Portanto, medidas que retiram os direitos trabalhistas são, no mínimo, desrespeitosas, para não dizer uma palavra mais forte, e quem defende essas ações, subestima ou desconhece a força do trabalhador brasileiro, que, organizado e consciente da sua grande importância, compara-se ao elefante de circo que um dia resolveu utilizar sua força descomunal para soltar-se facilmente da corrente. Ninguém terá coragem de se postar a sua frente.

Carlos Eduardo Maia de Oliveira
(Professor EBTT do Instituto Federal de São Paulo, Campus Votuporanga / Cirurgião - Dentista / Mestre em Microbiologia / Doutor em Geologia Regional)