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À espera da FACIP...

Por Marçal Rogério Rizzo
20 de janeiro de 2019
É certo que muitos leitores de certa forma se enxergarão no que irão ler aqui neste singelo texto. Mês de abril, na região de Jales, era mês de Feira Agrícola, Comercial, Industrial e Pecuária de Jales, a célebre FACIP. A feira nasceu em 1970 e veio para substituir o “Festival de Montarias da Alta Araraquarense”, porém penso que teve seu ápice como feira nas décadas de 1980 e 1990. Ao menos é isso que sinto como morador de Jales da época.
Aliás, registro aqui minhas lembranças e percepções adolescentes da FACIP. Bom, todo ano não via a hora de chegar a FACIP. Ali era um mundo à parte: mágico, colorido, repleto de atrações que transformavam o cotidiano de toda uma região. Espaço para encontrar e fazer novos amigos. As perguntas que mais se faziam entre a moçada na época eram: “Que dia você vai na FACIP?” Ou: “Você já foi na FACIP?” Não tenho informações estatísticas desse período, mas quase todo jovem da cidade e região passava pela feira.
Muita coisa acontecia naquele recinto nos dias de festa. Paqueras e namoros iniciavam-se e acabavam-se ali. Havia um bom parque de diversões; muitas barracas de comida e bebida; pavilhões de exposição comercial; áreas com exposição de automóveis e máquinas; pavilhões de exposição de animais; festa do arroz; festival de montaria em boi e cavalo e os shows. Tinha até um espaço um pouco mais pervertido, que era conhecido popularmente como “Vietnã”. Na verdade, o recinto onde acontecia a feira semelhava-se a uma minicidade. O espaço da feira parecia grandioso, porque era muito intenso. 
Curioso é que todos os caminhos nos levavam à FACIP. A empresa de ônibus urbano da época, a Viação São José, oferecia linhas exclusivas para a festa. Saía da praça do Jacaré e ia até o recinto. No entorno da FACIP, os terrenos baldios e até os quintais das casas transformavam-se em estacionamentos. A fila de automóveis e ônibus era enorme. Era uma ótima loucura muito organizada! 
O mais engraçado era que a FACIP parecia que abraçava todo mundo. As pessoas se preparavam para a festa. Era comum comprarem as calças de cowboy, botas, botinas e camisas xadrez, normalmente de manga comprida, até pelo motivo de abril ser um mês em que fazia um friozinho e às vezes chovia de forma branda, mas que não atrapalhava a festa. Agora repito: em um tempo não tão distante, mês de abril fazia frio em Jales. Aqui faço um parêntese: E ainda há quem não creia nas mudanças climáticas... 
É preciso recordar que, durante os dias de semana, à noite, era comum, nos espaços onde se concentravam os jovens, depararmos com alunos vestindo uniformes escolares. Matavam as aulas para ir até a FACIP. À época, parecia pecado fazer isso...
Aliás, na FACIP, parece que as pequenas coisas tinham um brilho diferente. Lembro que comer um cachorro quente na barraca da APAE ou do Lar era algo amplamente gostoso. Andar em qualquer brinquedo um pouco mais radical no parque trazia aquela emoção adicional. Havia os jogos de argola e a espingardinha de rolha, que eram atraentes ao público tanto para jogar, quanto para ficar observando. Assistir a um show do artista preferido era o máximo. Isso tudo nos dá a sensação de ter sido sentido de forma mais aguda e intensa, possivelmente por estarmos revivendo nossas ações da época.
De volta ao presente, parece que as pequenas coisas estão perdendo a importância no mundo. Um fenômeno que talvez tenha ligação direta com a sociedade do espetáculo, com a superexposição nas redes sociais. Hoje as pessoas fazem as coisas observando o que os outros estão fazendo, e aí não sentem o momento de forma profunda e sempre terão a sensação de que a grama do vizinho é mais verde.
Voltando no tempo mais uma vez, não podemos abstrair a liberdade e segurança que existia. Imagine que, à época, a maioria dos pais permitia que seus filhos adolescentes andassem pelo recinto de exposição desacompanhados de adultos. Apenas marcavam um local e horário para se reencontrarem no fim da noite, normalmente depois do show. Não era necessário mandar a localização por WhatsApp para um achar o outro.
Mais do que a vivência de uma pessoa esse texto é um breve confronto do agora com um passado relativamente recente, muito diferentes entre si torna ainda mais importante a reflexão, movida por indagações do tipo: Para onde estamos indo? Esse é o sentido certo? O que precisa ser mudado? O que cada um pode fazer?

Marçal Rogério Rizzo
(Economista e Professor na UFMS – Campus de Três Lagoas/MS)