Perspectivas

A dieta da laranja

Eu quero escrever sobre o caso do Laranjal dos Bolsonaros, e fico meio, sei lá... tenho medo, como diria Regina Duarte. Não quero falar de política e de corrupção. Já falei tanto desses temas neste Jornal que as letras “C e P” do meu teclado estão meio apagadas. E não vai ser a por falta de ideias que eu não vou escrever. Dá vontade de sair correndo. Ideias onde buscá-las? Ideias onde guardá-las? Por que será que tudo me parece muito parecido com o golpe de 64? Ainda há sobre o quê escrever? Será que tudo já foi dito? Escrever tem que ser sempre a mesmice de falar desta casta maldita de políticos que desonram a própria classe? Não quero chegar mais perto e contemplar as palavras de Drummond, cada uma com suas mil faces secretas, sob a face neutra, nem quero responder a sua pergunta desinteressada na minha resposta: somos todos trouxas assim?
Se eu pudesse psicografar o Paulo Francis escreveria uma bela matéria no  Diário da Corte, mas a matéria seria muito extensa e o Jornal não publicaria. Seu eu pudesse, também, psicografar o Tarso de Castro escreveria sobre a criação do Pasquim. É verdade que mais na lenda do que na história – porque ele não o criou sozinho. Jaguar e Sérgio Cabral (pai) foram seus sócios na origem do jornal, em 1969, sem falar no brilho individual dos primeiros colaboradores, como Millôr Fernandes, Ziraldo, Claudius, Fortuna, Henfil, Luiz Carlos Maciel, Paulo Francis e o diretor de arte Carlos Prospéri. Mas, com sua audácia e criatividade, Tarso foi o amálgama inicial para a imagem debochada do Pasquim, numa época em que o AI-5 acabara de fechar os canais políticos sérios. O sucesso foi incrível. Tarso tinha a vocação para criar jornais e o talento para fazê-los, mas sua irresponsabilidade os condenava à vida curta... sobre borrão vermelho de sangue com as gotas e coágulos pingando de dentro para dentro.
Mas eu não sei escrever noções sem o uso abusivo      da palavra.
Poderia falar sobre como era gostoso o velho PT e a história de sua fundação em Jales. Como participei da sua fundação. Talvez o maior sonho político de toda minha vida. Éramos sonhadores límpidos e puros como as águas de riachos cristalinos. Cabelos longos, ideias borbulhantes, a desesperada vontade de acabar logo com a   ditadura militar e fazer do Brasil uma nação democrática. Lembro-me como se fosse hoje da forma, da coragem, da determinação em que agia a famosa militância do PT. Uma militância honrada e com um contexto ideológico de primeira linha. Saudades...
Se eu fosse o Neruda poderia escrever os versos mais tristes neste momento. Escrever, por exemplo: “A noite está estrelada, e tiritam, azuis, os astros lá ao longe”. Mas eu nem a amei como o Pablo a amou, então desisto da tristeza desses versos. 
E você que lê e não sabe, Você que reza e não crê, Você que entra e não cabe. Você que fuma e não traga, você que não paga pra ver... Ah! se eu fosse o Vinícius, você ia ter que viver na tonga da mironga do kabuletê!!
Ai, as ideias não me faltam... mas essas palavras se recusam a me obedecer, e meu coração caminha por caminhos fora do meu corpo. Se eu fosse Nikos Kazantzakis, autor de Zorba, o Grego, provavelmente já estaria aterrorizado com essas letras do alfabeto, isso porque uma vez soltas elas se recusam a obedecer minhas    ordens.  Rubem Alves dizia: quando começo a escrever deixo de ser dono de mim mesmo. Fico à mercê de ideias que nunca pensei. E aqui estão elas aparecendo sem que eu as tenha chamado e me dizem: “Escreva!“ Não tenho outra alternativa. Obedeço. Se fica o dito pelo não dito, quem, afinal é o dito cujo? Será o Queiroz e seus Laranjais, digo, o Benedito? 
Não sou a Florbela, que mesmo antes do seu nascimento já estava marcada pelo inesperado, pelo dramático e pelo incomum. Mas queria Espancar esses versos, sou antes um exaltado, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudade… sei lá de quê! Oh! Essa maldita corrupção! Quem me dera encontrar o verso puro, O verso altivo e forte, estranho e duro, Que dissesse a chorar    isto  que  sinto! Desisto!! Não vou conseguir escrever, fico novamente com a Lispector, só me resta ficar nu, nada tenho mais a perder. 
Não pode haver melhor exemplo de ética maquiavélica. Em todo caso e, em caso de assalto ergam as mãos pro céu!!! Ou então vão viver na Tonga da Mironga do Kabuletê!!

Marco Antonio Poletto 
(é gestor no Poder Judiciário, Historiador, Articulista e Animador Cultural)
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