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47 ANOS: Vida longa ao Jornal de Jales

por Ayne Regina Gonçalves Salviano
14 de outubro de 2018
Ayne Regina Gonçalves Salviano
Ser jornalista de jornal grande, em cidade grande, é fácil. Você chega de manhã para trabalhar e a pauta já está pronta. A chefia já definiu qual fato você vai cobrir e quem entrevistará. Então, basta ir para o carro onde o motorista já te espera com o colega fotógrafo. No local da entrevista, você ouve a coletiva ou o pronunciamento, fala com a personagem junto com outros repórteres ou separada, e volta para a redação, onde checa os dados e escreve a notícia. Se você não é um jornalista setorista, talvez nunca mais encontre aquele entrevistado. Da mesma forma, você, repórter, raramente fica sabendo sobre o impacto do seu texto a não ser que alguém entre em contato para reclamar ou elogiar (só pra constar, este último quase nunca acontece).
Entretanto, precisa ser muito forte para exercer o jornalismo no interior. As pautas são poucas, é preciso criar assunto, relembrar temas, provocar discussões. Raramente assuntos polêmicos têm coletivas organizadas e você, repórter, precisa agendar e reagendar encontros com várias personagens até conseguir todos os dados que precisa para um texto decente, apurado e bem escrito, algo raro de se ver nos últimos tempos. Entre suas fontes estão o amigo do seu pai de longa data, o pai do seu amigo de escola por décadas, o vizinho, os pais do coleguinha do seu filho, seu antigo professor, ou seja, quanto menor a cidade, mais chance de você encontrar a personagem mais do que uma vez por dia. Claro que se ela estiver ligada a uma notícia boa o encontro será bom. Mas se ela for alvo de alguma denúncia...
Eu me lembro até hoje. Quando a Folha de S.Paulo inaugurou a redação em São José do Rio Preto (que nem é pequena como Jales) e eu era uma das colaboradoras, logo nas primeiras semanas o editor-chefe, muito conceituado profissionalmente, foi agredido dentro da redação por uma pessoa que se sentiu incomodada com um jornalismo que ele não conhecia. Estava acostumado às colunas sociais, mas saiu na página das denúncias, e não gostou. Pensou que atacando fisicamente o jornalista, o intimidaria. Não foi o que aconteceu. Jornalista, jornalista mesmo, usa a verdade da profissão como escudo.
Fico imaginando quantas histórias assim, de pressão, o Deonel Rosa Junior, diretor e editor do Jornal de Jales, já não vivenciou. Sempre digo a ele que quero ler, em primeira mão, o livro que ele precisa estar escrevendo com suas memórias. 
E quando o Jornal de Jales completa 47 anos de existência, como aconteceu nesse dia 10 de outubro, o mestre Deonel só merece palavras de incentivo. Em um mundo tão perturbado pelas fake news e pela manipulação pela desinformação, um veículo de comunicação que se mantém pela empatia com o leitor merece mesmo ser objeto de estudo, como tive o privilégio de fazer no meu mestrado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo há uma década.
Minhas melhores histórias profissionais foram vividas no JJ. Sempre conto aos meus alunos que as duas únicas ameaças de morte que recebi foram trabalhando em Jales. Em São Paulo, nunca. A única vez que chorei depois de uma entrevista, antes de escrever o texto, foi após conversar com seu Ruy Berbert, que na época procurava os restos mortais do filho exterminado pela ditadura militar. Ele e a família queriam dar um enterro digno ao filho/irmão amado. 
Onde mais aprendi sobre edição, diagramação e trabalho gráfico foi no JJ. De repórter a editora. Criar com Deonel o caderno de Esportes, o Projeto Memória, o programa de estagiários e até mesmo uma nova identidade visual para o JJ quase 20 anos atrás são troféus de valor para mim. Obrigada pela oportunidade, meu querido Deonel.
Vida longa a você e ao JJ. Conte comigo.

Ayne Regina Gonçalves Salviano
(é jornalista. Trabalhou no Jornal de Jales entre 1991-1992. Atualmente é professora no ensino médio e superior da rede particular de ensino e gestora da Damásio Educacional
Araçatuba)