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1949/1968 - A Jales que vivi

Sim, hoje é o dia apoteótico de carnaval, mas onde está o povo de Jales?
Através de amigos, fiquei sabendo que o carnaval jalesense foi substituído pelos ranchos das orlas dos grandes lagos, retiros espirituais e a fixação nas poltronas diante da televisão.
Sobrou apenas o carnaval  de salão popular, patrocinado pela prefeitura desde a fundação de Jales. E ainda bem que restou o querido risca-faca, permitindo que os mais pobres soltem sua alegria no salão.
Será que a quietude dos ranchos substitui o prazer de dançar e cantar Sassaricando, na voz de Virginia Lane, a vedete do Brasil?
Sassaricando, todo mundo leva a vida no arame,
Sassaricando, a viúva, o brotinho e a madame,
O velho, na Praça da Colombo, é um assombro, sassaricando !
Retiro significa retirar-se, afastar-se, ficar longe da festa, negando sua importância na vida cultural brasileira e deixando de viver a catarse de cantar com as multidões, na doce voz de Carmem Miranda:
Ô balancê balancê, quero dançar com você !
Entra na roda morena prá ver, o balance balancê!
Optando por ficar “chumbado” na poltrona diante da televisão, como abraçar os amigos, sentir o calor humano no suor  da folia, se esbaldando com o grande sucesso de Lamartine Babo:
O teu cabelo não nega mulata,
porque és mulata na cor;
mas como a cor não pega mulata,
mulata eu quero o teu amor!
Fugir do carnaval, festa que faz nossa fama no mundo inteiro e principal atração turística geradora de divisas para nosso país, seria a melhor decisão?
Longe do carnaval, retiramos as marchinhas de nossas vidas e não cantamos mais a obra prima mais tocada, em todos os tempos:
Mamãe eu quero, mamãe eu quero,
mamãe eu quero mamar!
Dá a chupeta, dá a chupeta,
dá a chupeta pro bebê não chorar !
Não é justo a Jales que delirou com Carmem Miranda, esquecer de seu maior apelo em favor do amor:
Taí, eu fiz tudo prá você gostar de mim !
Oh meu bem não faz assim comigo não,
Você tem, você tem que me dar seu coração !
O carnaval de 2014 é um retrato social crítico do afastamento de nossas raízes culturais. A grande festa de Momo nasceu para ser a arte do encontro, cantada em prosa e verso por Vinicius de Moraes, quando estufa o peito e declama que “ a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida “.
Esta crônica/artigo foi escrita em Copacabana, na casa de minha filha Renata, onde passo todos os carnavais desde 2007, somando a sorte de um passeio 0800 e o prazer infinito de viver, até morrer, as maravilhosas marchinhas do Rio de Janeiro, em cores e ao vivo !
Estou saindo no Cordão do Bola Preta e sempre lembrando de Escurinho, o grande mestre de bateria que fez Jales tremer no batuque do samba !
Sempre busquei, desde a primeira infância, encontrar e dividir o bom humor da existência com as pessoas que fazem o mesmo !
E hoje, domingo de carnaval, 2014, minha primeira matinê faz aniversário de sessenta anos. E tudo aconteceu num salão improvisado na Avenida Lagoa, hoje Francisco Jalles, onde funcionou a Casas Jaraguá. Um dia para ser comemorado duplamente. Primeiro, por estar vivo e saudável, fazendo, todas as semanas, uma declaração de amor à Jales, através de minhas crônicas e artigos que revelam a Jales que vivi. E por ter começado, aos 7 anos, em 1954, sentir com mais intensidade o elixir da vida em todas manifestações sócio-culturais da sociedade, com destaque para o carnaval.
Lembro como se fosse hoje, nos mínimos detalhes! Minha irmã Carmem me fantasiou de pirata, com espada e tudo. Quando entramos no salão, a primeira marcha de carnaval que entrou em minha vida:
Ô jardineira por que estás tão triste?
Mas o que foi que aconteceu?
Foi a camélia que caiu do galho.
deu dois suspiros e depois morreu (BIS).
Havia crianças humildes, descalças, retraídas, retrato de uma sociedade de classes. E também havia crianças fantasiadas, revelando confortável posição social. Mas não havia segregação e todo mundo dançava com todo mundo.
Sambando como passista, Nádia, filha do médico Eduardo Ferraz Ribeiro do Valle, apresentava uma fantasia que enchia os olhos de admiração. Juntava a beleza de seu rosto carioca e o talento para sambar como gente grande. Um espetáculo ! Nádia deveria ter 7 ou 8 anos. Mas cantava, bem decorado:
Você pensa que cachaça é água,
cachaça não é água, não!
Cachaça vem do alambique,
e água vem do ribeirão !
Sempre sorridente, Nádia cumprimentava as pessoas, deixando transparecer, com rara elegância, sua educação refinada.
Outra criança de nossa idade era Sonia Caparroz, filha primogênita de Caparroz e Dona Francisca. No mesmo pique de Nádia, Sonia, com aquele rostinho de boneca austríaca, embora filha de espanhol, dançava como gente grande. Dava cada giro no corpo que parecia ter frequentado escola de samba. Fantasiada de bailarina clássica, saia de ballet e sapatilha, cabelo amarradinho, dava um show no salão.
Mesmo com a roupa grudada pelo suor intenso, a gente continuava dançando, como se aquela matinê de 1954 fosse o melhor dia de nossas vidas.
E de Mário Lago, sapecamos Aurora:
Se você fosse sincera, ôôôôô Aurora
Veja só que bom que era, ôôôôô Aurora!
E a terceira menina, exatamente de minha idade, era Lucia Helena Mistilides, filha caçula de Seu Felipe, o popular “Titio”. Lucia era irmã de Vassilios, Elza, Daime e Maria, a melhor marcadora de festa junina que conheci na vida ! A família Mistilides voltará em artigo específico!
Lucia Helena sempre teve vocação carnavalesca. A ultima vez que a vi, nos anos noventa, na Avenida Paulista, em São Paulo, fiquei sabendo que morou no Rio e, junto com seu marido Mussato, desfilou vários anos na Marques de Sapucai. Aquela criança de nossa primeira matinê, sessenta anos atrás, tornou-se minha grande amiga, para sempre!
E hoje, em pleno 2014, estou sambando no Rio de Janeiro, obviamente sem o brilho de Lucia Helena, mas dando meus passos. E pensar que Lucia foi a criança daquela matinê que venceu o sambódromo e foi estrela do carnaval carioca!
E a matinê de 1954 durou uma eternidade, começando pela garganta afiada de Emilinha Borba:
Chiquita bacana lá da Martinica,
se veste com uma casca de banana nanica;
Não usa vestido, não usa calção,
o inverno pra ela é pleno verão !
Marlene, maior rival de Emilinha Borba, com quem disputava, palmo a palmo, o primeiro lugar nas paradas de sucesso, não deixou por menos:
Lata d’água na cabeça,
lá vai Maria, lá vai Maria!
Sobe o morro e não se cansa,
numa mão leva criança, lá vai Maria !
E o salão explodia de alegria. A poeira na rua corria solta e até entrava um pouco no salão. A passagem de caminhões, carroças, charretes e muitos cavaleiros, levantavam um pó infernal, mas a gente não parava de dançar e cantar o grande sucesso de Chiquinha Gonzaga:
Oh abre-alas, Oh abre-alas,
que eu quero passar !
Eu sou da lira, não posso negar,
eu sou da lira, não posso negar !
A porta do salão era grande, mas os adultos ficavam espiando, impedindo a entrada de ar para refrescar aquele forno crematório.
Era domingo e o pessoal da zona rural vinha passear na cidade, desfilando em seus cavalos pela avenida, fazendo o relinchar de seus animais entrar dentro do salão, mas sobrevivemos e com muita alegria.
Cheguei em casa exausto e mergulhei em sono profundo, antes do dia escurecer.
Por favor, devolvam nossa matinê de 1954 !
Vamos ativar os bailes de salão do Ipê e Jales Clube!
Jales merece a volta de suas escolas de samba, de seus blocos, de um carnaval de rua que não pode morrer !
Jales é mais centro de região que Votuporanga e Fernandópolis, mas gravitamos na sombra de Santa Fé, até no quesito carnaval.
Viva o sonho do carnaval voltar para Jales!

  ROBERTO GONÇALVES
(cientista político)
 

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