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Uma carta para o Ariovaldo
11 de janeiro de 2016
Professor, o senhor na certa iria gostar de ver o meu filho tocando para mais de 2 milhões de pessoas no réveillon de Copacabana. 
É claro que toda  aquela gente não estava ali por causa do show. Cada palmo de areia da praia era disputado na esperança da queima de fogos, daqueles quinze minutos de foguetório que nos colocam num tempo suspenso, que parece não existir, entre o ano que se vai e o que está apenas começando. Mas, como ainda não é possível juntar 2 milhões de pessoas em fração de segundo, por volta de 20 horas os organizadores da virada puseram no palco uma moçada para contar a história do samba num espetáculo de 120 minutos. Da mesma forma como, para manter junto e depois escoar tanta gente, foram convocados Jorge Ben e Zeca Pagodinho, na sequência. De tal forma que de manhãzinha a praia já estava deserta, apenas com 700 toneladas de lixo por recolher. 
Mas, como ia dizendo, Ariovaldo, o senhor haveria de gostar de ver meu filho tocando violão para tanto gringo e tanto brasileiro junto, debaixo do mesmo céu. Diogo Nogueira e Beatriz Rabello no mesmo palco com ele, cantando e dançando como aprenderam em casa com seus pais, João Nogueira e Paulinho da Viola, respectivamente. 
Ainda que a aparelhagem possibilitasse se ouvir as músicas no extremo da praia, no Leme, a maioria das pessoas preferia conversar, namorar, beber ou simplesmente circular como isca para os capitães da areia, que hoje são chamados de trombadinhas. Mas, professor, se 10% daquela gente estava ligada no samba, isso representa 200 mil pessoas. Ou se apenas 1 em cada 100 pessoas estivesse ouvindo, já seriam 2 mil pessoas. À minha volta, pelo menos, todo mundo sambava, cantando junto as músicas de Noel Rosa, Ismael Silva, Cartola, Caymmi, Tom Jobim e outros bambas.
Impossível saber o que passava pela cabeça do meu menino lá no palco tocando samba para tanta gente, Ariovaldo. Assim como não imagino o que se passava pela sua, tantos anos atrás, na sala de aula enquanto nos apresentava à música popular brasileira. Um daqueles alunos prestava atenção na lição, tentava aprender.Pelo menos um, professor, eu posso garantir. Aceite, portanto, o nosso abraço agradecido. O meu e o de meu filho Glauber.
 
Luiz Carlos Seixas 
(é músico, compositor e ativista cultural)