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Sobre D. Reginaldo, o novo bispo de Jales
22 de fevereiro de 2016

“(...) Ninguém pode exigir-nos que releguemos a religião para a intimidade secreta das pessoas, sem qualquer influência na vida social e nacional, sem nos preocupar com a saúde das instituições da sociedade civil, sem nos pronunciar sobre os acontecimentos que interessam aos cidadãos. Quem ousaria encerrar num templo e silenciar a mensagem de São Francisco de Assis e Madre Tereza de Calcutá? Eles não poderiam aceitar. Uma fé autêntica – que nunca é cômoda nem individualista –comporta sempre um profundo desejo de mudar o mundo, transmitir valores, deixar a terra um pouco melhor depois da nossa passagem por ela” (Papa Francisco. Exortação Apostólica Evangeliigaudium. A alegria do Evangelho, pág. 151 e 152. 1ª ed. 6ª impressão. Sáo Paulo: Paulinas, 2013)

Ele sonhou que, descalço, tomava posse. Disse que o seu ministério se enriqueceria na pobreza dos necessitados. Esteve entre eles em vários países. Sorriu entre os sofredores, em várias partes do mundo. Conheceu os africanos. Viu neles gloriosas expansões de alegria, contrastantes com retenções de tristeza em pessoas mais ricas.
O nosso querido Dom Reginaldo tomou uma posição na vida. Há, por esta Terra, três ordens de seres humanos. Os que agem deliberadamente na corrente das injustiças; os que silenciam, dizendo-se imparciais; e os que se arriscam pela vida dos que sofrem. O templo de Deus resguarda a coragem destes últimos, protegendo-os contra as perseguições e maledicências de que são vítimas os que lutam pela justiça.
Bispo é uma posição de destaque na Igreja Católica. Dom Reginaldo, a partir de 31 de janeiro de 2016, assumiu essa honrosa função religiosa, em Jales-SP, para dar continuidade à obra grandiosa do nosso D. Demétrio. Poderia se embriagar com as fantasias terrenas do poder, estar entre os poderosos na Terra, glorificar-se com as honrarias do alto cargo que passou a ocupar. Mas, não. Despediu-se dos falsos gáudios materiais, beijou a alma de Deus, com encanto e doçura contagiantes, para estar ao lado dos que estão mergulhados na miséria  e no pântano das desigualdades sociais.
Vejamos bem as Escrituras. 
Os Escribas e os Fariseus eram os doutores da lei e da religião. Limpavam o exterior do corpo e do prato, mas o interior estava cheio de rapina e iniquidade (Mateus 23: 25). Eis os sepulcros caiados, os belos túmulos pintados de branco: por fora formosos, por dentro cheios de ossos de mortos e de toda a imundícia (Mateus 23: 27).
O Apóstolo Tomé presenciou Jesus agoniando na cruz. Viu os famosos homens da lei, folheando livros divinos, doutores preenchidos de orgulho, passando eretos, exibindo os mais complicados raciocínios, quando o maior entre nós era humilhado (Chico Xavier. Boa nova, pelo Espírito Humberto de Campos, pág. 182. 37ª ed. 4. Imp. Brasília: FEB, 2014).
Dom Reginaldo poderia seguir a sorte dos atuais Escribas, Fariseus, doutores da lei, daqueles que em geral erguem o peito para acompanhar as injustiças, fecham-se nos círculos obscuros do poder e escondem a túnica para a população, para aqueles carentes de direitos, para aqueles mergulhados na triste sorte da miséria e da opressão.
Mas, não. Dom Reginaldo se rendeu à fala saborosa do Papa Francisco, para quem “no coração de Deus, ocupam lugar preferencial os pobres, tanto que até Ele mesmo ‘Se fez pobre’ (2 Cor 8,9) (...) O Salvador nasceu num presépio, entre animais, como sucedia com os filhos dos mais pobres” (Exortação Apostólica Evangeliigaudium. A alegria do Evangelho, pág. 162. 1ª ed. 6ª impressão. Sáo Paulo: Paulinas, 2013).
Fez mais o nosso bispo. Conclamou a nós todos, que ocupamos qualquer das funções transitórias desta vida, a defendermos e compreendermos a causa dos oprimidos, concretizando a determinação de Deus para que ergamos os necessitados (Salmos 113: 8).
É certo que o nosso irmão Reginaldo entende as dificuldades ao posicionar nesta vida: “Se já encarei tantas resistências à proposta do Evangelho sendo padre presbítero, não espero facilidades como bispo” (Jornal de Jales).
Não espere mesmo facilidade, adorado filho do Pai. No âmbito dos mesquinhos interesses humanos, a solidariedade é causa para escárnio, quando não para dolorosas perseguições. Mas a causa dos necessitados, irmão Reginaldo, é uma visita plena às nossas consciências, um exercício de lealdade para com Deus e um compartilhamento com os que aproveitam o frescor do Evangelho e a doçura da justiça.
Lá se vão alguns anos e me lembro de um senhor, na sabedoria dos 80 anos, plantando hortaliças, frutas e legumes. A casa era simples. No fundo, uma porção pequena de terra. O idoso vivia de salário mínimo. Apanhava a comida, plantada nesse pequeno pedaço de chão, e levava até uma escola, onde estudavam crianças carentes. 
Descalço de orgulho, descalço de poder, descalço de tudo que o dinheiro pode dar, o simples senhor levou comida aos pequeninos, esses os primeiros no trono de Jesus.
Pôr-se descalço é descer à miséria, calçando as angústias que a alma alheia carrega. Questão fundamental, nesta quadra histórica da indiferença, é recuperar a dignidade perdida de muitos dos nossos irmãos, companheiros de jornada. D. Reginaldo sonhou que tomaria posse, descalço. Os pés da verdade e da justiça dispensam sandálias. O calçado que os pés descalços de D. Reginaldo vestiram, está, todo, na luz do Evangelho. É com esse calçado que Deus vestirá os pés dos que pedem socorro. Ensina-nos, bispo Reginaldo, a doçura da sua humildade, a grandeza do seu humanismo, para que tenhamos, com os pobres,os destituídos de toda sorte de direitos, a mesma gentileza que se costuma devotar aos poderosos.
 
Fernando Antônio de Lima 
(Juiz de direito na comarca de Jales)