jornaldejales@melfinet.com.br
17 3632-1330

Da selva de pedras às ruínas Incas: diário de bordo de São Paulo até Machupichu
01 de fevereiro de 2016
por Eduardo Britto
 
Foram 14 dias de viagem. Mais de 8 mil quilômetros percorridos. Dentro do ônibus, enfrentamos 80 horas de rodovias. Saímos de São Paulo dia 8 de janeiro de 2016 para conhecermos uma das sete maravilhas do mundo: Machupichu!
A ideia da viagem remonta os meus tempos de faculdade. A Geografia, seja no âmbito universitário ou no exercício da profissão, desperta a paixão pela ciência a vontade de conhecer lugares, realidades, pessoas, culturas e visões diferentes de mundo. Portanto, foi na universidade que tracei os planos dessa viagem que realizamos neste mês. Porém, o plano tornou-se mais audacioso quando opto pelo percurso terrestre. Afinal, não haveria oportunidade tão preciosa em conhecer tanta diversidade senão fizesse o trajeto de ônibus. 
Acompanhado de meu irmão, Paulo Britto, saímos da capital paulista às 15 horas do dia 8 de janeiro. Numa tarde de calor, rumamos para Porto Quijarrona, divisa do Brasil com a Bolívia. Cidade pequena e de infraestrutura precária, conta com condições lastimáveis de sobrevivência. A população vive basicamente do comércio de fronteira com a entrada e saída de pessoas de um país para o outro. Nosso período em Porto Quijarro só não foi mais rápido devido a demora com as burocracias migratórias. Não mais do que 5 horas na cidadezinha e já estávamos no ônibus em direção a Santa Cruz de laSierra.
 
BOLÍVIA
Chegando no próximo destino, encontramos um forte calor acompanhado de muita umidade. Santa Cruz preserva seus traços arquitetônicos antigos, muito arraigada ao catolicismo e à população mestiça visivelmente característica. A cidade possui um plano urbanístico bem planejado com anéis a partir do centro urbano que são ligados por avenidas radiais. Apesar de alguns bairros nobres, os problemas sociais, sanitários e econômicos são visíveis.
Em Santa Cruz ainda estávamos apenas com 430 metros de altitude. Ressalto isso porque após dois dias naquela cidade tínhamos um grande desafio: a áreas elevadas de La Paz. Saímos na noite do dia 11 em direção a sede do governo boliviano e lá chegamos por volta das 12h do dia seguinte.
Não há como negar que estar a  4 mil metros de altitude é algo desgastante. Náusea, dores de cabeça, falta de ar, perda do apetite. São sintomas frequentes no primeiro dia. Mesmo que você se prepare adequadamente para encarar o altiplano bolivianos, irá sentir os sintomas. Conosco não foi diferente, mas foi possível superar.
La Paz fica no vale entre duas cordilheiras. Em El Alto, na porção ocidental alcançamos 4300 metros de altitude. No Mirador Kilikli, na porção oriental, chegamos 4100 metros de elevação. Já no Estádio Olímpico, na porção central, a altitude é de aproximadamente 3700 metros. É maravilhoso observar La Paz do alto destas regiões com o Andes ao fundo. Cidade de ruas estreitas, arquitetura antiga, comércio agitado e com lugares modestos e agradáveis de visitar. No primeiro dia o frio. No segundo e último, calor.
 
PERU
De La Paz partimos para Cusco. Às margens do Lago Titicaca, considerado por muitos o lago navegável mais alto do mundo, enfrentamos demora nas burocracias migratórias em Desaguadero. O frio da altitude e da umidade do lago apertou ao anoitecer. Porém, por volta das 20 horas já retomávamos o rumo a Cusco.
Chegando na cidade peruana, deparamos com uma grata surpresa. Cusco é uma cidade internacional, muito bem cuidada, preservada e de uma beleza cênica irretocável. Mesmo com a invasão espanhola no século XVI, a população ressalta e mantém a cultura inca na cidade. Pernoitamos em Cusco e, no dia 15, fomos para Machupichu.
A opção para se chegar às ruínas mais uma vez foi aquela mais audaciosa e cansativa. Optamos pela van que percorre 7 horas de viagem pelas cordilheiras até a Hidrelétrica de Santa Teresa. A distância não é longa, mas a sinuosidade e o sobe-desce impedia um tempo menor de viagem. Chegando à Hidrelétrica, caminhamos mais 12 quilômetros até Aguas Calientes. O cansaço era recompensando pelas paisagens das montanhas e dos riachos que percorriam entre elas.
 
MARAVILHA
Pernoitamos em Águas Calientes. Porém, às 4 horas da manhã já estávamos de prontidão para iniciarmos outro feroz caminhada: subir  até as ruínas! Foram duas horas de escadarias íngremes com pausas para hidratação a cada dez minutos. Tudo isso para que no dia 16 de Janeiro, às 7 horas e 30minutos pudéssemos avistar uma das sete maravilhas do mundo: as ruinas da antiga cidade Inca de Machupichu.
Não há palavras para descrever a beleza cênica, a sensação emocional e as energias que emanam num lugar místico e secular como este. Muitos questionamentos, pensamentos e reflexões são feitas quando lá se chega. Creio que a opção feita elevou ainda mais o valor e a emoção de conhecer Machupichu. A dica que fica é que realmente vale a pena conhecer!
Em seguida, dia 17, iniciamos a volta com muitas histórias, lembranças, conhecimentos e pensamentos que nos acompanharam durante o trajeto.
 

 

Caminhada de Eduardo e Paulo entre a Hidrelétrica Santa Teresa e Águas Calientes

 

 

Plaza da Armas em Cusco, no Peru 

Mirador Kilikili, em La Paz 

 

 

 

 

 

 

 

 

Parque arqueológico de Saqsaywaman, em Cusco

EDUARDO BRITTO

(jalesense, professor de Geografia do Colégio e Curso Pré Vestibular do Sistema Objetivo de São Paulo, professor de Geografia graduado pela UNESP, especialista em Gestão Ambiental pela UFSCAR e mestre em Ensino de Ciências pela UFMS)