quarta 14 abril 2021
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ESPECIAL 

Jorge Pontes 
(de Fernandópolis/ Cidadão)
 
Status, fortuna, carrão, mansão... Para muitos, estes são os principais fatores para o ingresso na faculdade de medicina, a maioria, aliás, nascida em berço de ouro, de família de médicos ou de empresários bem sucedidos que veem na medicina uma oportunidade do filho alcançar independência financeira.  
Porém, se esta é a realidade de muitos não é de todos e o exemplo vivo disto atende pelo nome de Washington Henrique da Conceição, que pode ser encontrado todos os dias nas Unidades Básicas de Saúde de Fernandópolis ou de plantão na Santa Casa. 
O jovem médico, de 26 anos, filho de um administrador de fazenda e de uma faxineira, escolheu a carreira com o real intuito de ajudar o próximo, tanto que abriu mão do luxo que sua profissão pode lhe proporcionar para se tornar padre, o que chegou a motivar algumas pessoas a lhe chamarem de louco. 
“Talvez eu tenha deixado uma vida de médico, com algumas facilidades que essa profissão proporciona, mas o essencial levo aonde for. Esse simplesmente não era meu projeto, não era a melhor forma de servir. Fico muito feliz de ver meus amigos da faculdade, casando, construindo casa, viajando, Deus quer tudo isso para todos, feliz deles que conseguem de forma justa realizar seus desejos e necessidades. Só lembro a eles que também somos chamados à caridade e partilha como forma de cuidar do próximo. Deus deseja o melhor para todos. 
 
QUEM É
Washington nasceu em Fernandópolis no dia 01/05/1989. Ele é filho de Vera Lúcia Bichofe e Valdemir Antônio da Conceição e tem uma irmã chamada Luana Carla da Conceição. 
Devido ao trabalho de seu pai, é administrador de fazenda, Washington morou em muitos lugares. Até os seis anos, residiu em Santana da Ponte Pensa, depois em Campo Grande-MS, Pirajui-SP, e, por fim, aos 16 anos retornou para Fernandópolis, onde mora até hoje com seus avós maternos.
Dedicado, o jovem que se formou como destaque de sua turma, estudou sempre em escola pública, com exceção do colegial, período em que ganhou uma bolsa de estudos numa escola particular de Fernandópolis. “Esse foi um período de muito estudo, tinha uma rotina de 8 horas de estudo além das horas de aula na escola”, disse. 
Em 2008, com muita luta, ingressou na faculdade de medicina em Fernandópolis. Para arcar com as mensalidades, seus pais tiveram que vender praticamente tudo que tinham e empenhar quase que na totalidade o que recebiam em seus trabalhos. 
“Morar com meus avós nesse período foi algo fundamental, eles não me cobravam nada para morar com eles, desta forma tudo que era ganho era usado para minha formação. Em 2009 ganhei uma bolsa de estudos na faculdade o que possibilitou concluir o curso. Durante a faculdade eu dava aulas para outros alunos que tinham mais dificuldade, com isso conseguia ter um dinheiro para gastos pessoais. Nunca faltou nada, sempre vi em tudo um toque de Deus providente”, contou Washington. 
Já formado, iniciou a carreira profissional com a qual sempre sonhou, como médico de PSF na Prefeitura Fernandópolis e como médico plantonista na Santa Casa de Misericórdia. 
Por isso nós contratamos e ele acabou sendo designado para a UBS da Cohab Antonio Brandini, onde descobrimos o excelente profissional que ele é. Sempre foi muito parceiro e solícito atendendo a todos os chamados dentro e fora do seu horário de trabalho. Além disso, nunca tivemos uma única reclamação dele vinda de pacientes ou mesmo dos funcionários das unidades em que trabalhou. Muito pelo contrário, temos reclamações quando precisam transferi-lo de uma unidade para outra, pois os pacientes não querem que ele saia”, afirmou a secretária de Saúde, Lígia Barreto.  
 
VOCAÇÃO
Não obstante, o amor pela profissão acabou se chocando com sua vocação e Washington optou pela segunda, tornando-se seminarista na Diocese de Jales e servindo as comunidades católicas do núcleo III de Fernandópolis, composta pelos bairros São Bernardo, Bernardo Pessuto, Cohab Cris, Santo Antonio, Lajeado, Coqueiro, Jardim Planalto, Palma Mininelie Corinto.  
“Minha mãe diz que desde criança queria ser padre, oscilando entre ser padre e médico. Aos 15 anos tive um desejo muito grande de entrar no seminário, mas era jovem e não consegui discernir muito bem o que estava sentido naquele momento. Sentimento que voltei a sentir no ano de 2010 de uma forma tão intensa que não consegui resistir, buscando então, ajuda de padres que me auxiliaram no processo de discernimento e aqui estou hoje como seminarista, um jovem feliz”, contou. 
Sua escolha acabou gerando conflitos familiares no começo, afinal, seus pais tinham outros sonhos para ele. Porém, tudo acabou se ajeitando quando entenderam a verdadeira vocação de seu filho. 
 
PRÓXIMOS PASSOS
Para vestir a batina, o seminarista não terá de abandonar o jaleco e o estetoscópio. Ele será o primeiro padre médico de Fernandópolis e garante que jamais abandonará a medicina, assim como nunca pensou em deixar a vocação. 
“Não existe acaso na vida do ser humano, tudo segue um propósito que é a vontade de Deus. Penso então que ser médico responde a um propósito que nem eu sei bem qual é, mas com certeza responde a um projeto de Deus em minha vida. Se ele chamou um jovem médico a ser padre deve ser porque ele precisa de um padre médico, desta forma penso que nunca deixarei de exercer a medicina. O papa Bento XVI certa vez em sua visita ao Brasil disse que Deus nunca nos tira nada, ele apenas acrescenta, por isso não devemos ter medo de entregar tudo que somos e temos a Deus, não teria melhores mãos a confiar”, concluiu. 
 
Washington em um de seus atendimentos a pacientes 
 
 
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